A idéia começou em Paris e se espalhou pela Europa: pra comemorar o solstício (e com ele achegada do verão), a maioria dos museus da cidade fica aberto até as 3 horas da manhã (!), com programações intensas e muitas exposições especiais. Outra coisa bacana é que pra visitar os lugares só precisa comprar um passe que custa R$13 que dá direito a entrar em qualquer museu participante e usar plenamente o transporte público durante as 12 horas que duram o evento, principalmente as linhas que são colocadas em itinerários especiais para essa noite.
O foda é que é muita coisa pra ver em poucas horas, então é uma overdose de informação junto com "hiperoferta", o que te dexa muito tonto e confuso sobre pra onde ir, o que ver e a melhor forma de aproveitar.
O único lugar onde pude tirar umas fotos (as internas, na camufla) foi no Museu Nacional, mas ainda passamos pelo Museu do Vinho, Museu do Metrô e tentamos chegar no Museu de Finas Artes e na Sala de Artes, mas para estes dois últimos chegamos tarde. Agora só ano que vem...
Comecei o dia indo assinar o contrato do novo flat. Diego ainda conseguiu um desconto extra, negociador inato! Mas assinar documentos com datas futuras é algo que decididamente não me deixa à vontade.
Depois fui no escritório de ISP (programas de estudos internacionais) da Corvinus atendendo a um chamado. Já esperava a boa notícia, mas só com o documento na mão fiquei realmente tranquilo e feliz. Não significa muito, na real é quase nada... Mas...
Yes!!
Cumpri meu expediente e, na saída do trabalho, me dei conta que sempre fazia o mesmo caminho todos os dias do escritório até a estação de metrô. Péssimo vício: correr sempre pelos mesmos caminhos conhecidos achando que o melhor é sempre o mais curto ou mais rápido; esse comodismo nos impede de ver as coisas ao redor. Como não tinha nenhum compromisso urgente, resolvi acabar com essa situação e ver o que eu estava perdendo por andar sempre com pressa.
Lilla acertou seu intercâmbio na Índia e 'tá indo pra Nova Dheli até o fim do mês. Aí o Diego estava à procura de um novo lugar pra morar e cogitou de dividirmos o ap. Só que aí eu já 'tava achando mesmo meio caro o aluguel que estava pagando e não 'tava gostando do fato de morar um pouco longe do centro. Aí apareceu esse flat num lugar ótimo e por bem menos do que eu pagava. Aí decidi ir morar aí...
A localização é excelente: do ladinho de uma estação do metrô e na linha do tram 4/6, mas é tão perto de tudo que dá até pra ir a pé pro trabalho e pra universidade. Além disso, tem de tudo ao redor (farmácia, mercado 24, etc), pertinho inclusive de alguns museus legais e de uns agitos bacanas. Vou dividir o lugar com mais dois brasileiros (dois Diegos), morar num quarto quatro vezes maior e pagar vinte por cento menos. Tá bom, né?
Lembra que, há uns dias, eu falei que fui no mercado de pulgas e que, excepcionalmente naquele dia, o negócio 'tava fechado? Pois então, hoje fui lá novamente. E adivinha... Óbvio: novamente dei com a cara na porta!
E da outra vez, não podendo ir ver o tal mercado, acabei num festival de vinho, certo? Pois então, adivinha o que por acaso estava acontecendo no parque ao lado? Adoro rotina!
Hoje li uma notícia sobre a recente queda da Selic e o ranking da taxa de juros reais no mundo. Fiquei surpreso quando vi que a Hungria está logo acima do Brasil, o qual ocupa o terceiro lugar na tabela. (A China, com toda sua hegemonia, está no topo!). Essa proximidade me despertou interesse, aí fui ler sobre a economia local e tentar aprender um pouco sobre o assunto.
Logo quando cheguei por aqui, reparei num quadro que fica na sala do apartamento onde moro com várias notas antigas. Achei bacana mas não dei muita bola; afinal, numismática é um hobby comum em todas as partes do mundo. Contudo, hoje entendi a importância histórica daquele quadro que tinha apenas cédulas de uma mesma moeda: o pengő. Pra resumir, no período após a segunda guerra, a inflação na Hungria chegou a alcançar 1.3×1016% ao mês (julho de 1946), o que quer dizer que os preços dobravam a cada 15 horas, chegou a existir uma nota de 100 sextilhões de pengő (100.000.000.000.000.000.000,00!!). Ambos os números são recordes mundiais que atualmente estão sendo ameaçados pelo Zimbabwe. (Dados da Wikipedia).
Atualmente, mesmo com essa taxa de juros alta, a Hungria tem uma economia sólida, tanto que está na União Européia desde 2005 e em contagem regressiva pra adotar o Euro (2013). Mas enfim, o tal quadro na sala está lá pra lembrar o quanto a vida pode ser realmente sofrida. No Brasil, acho que muitos nem se lembram que, antes do Real, a gente penava com 40% ao mês de inflação. A memória brasileira é tão fraca que já ouvi gente dizendo que sente falta da época do Collor e até da ditadura.
Coisas que você deve saber que são ao contrário na Hungia: -[é] tem com de "ê" e [e] tem som de "é"; -sobrenome vem antes do nome ("Stein Roger vagyok, örülök hogy látlak!"); -casadas usam aliança na mão direita; -[y] e [z] estão em lugares opostos no teclado e [0] fica à esquerda do [1]; -o primeiro dos dois beijinhos se dá na bochecha esquerda, às vezes nos homens também (!).
Tive que cruzar o oceano pra descobrir que a música de um dos meus episódios prediletos de "Tom & Jerry" foi escrita por um húngaro. Já fez a viagem valer a pena!
E é impressionante como essa cidade respira música. Sempre tem alguém carregando um instrumento no transporte público, de flauta a violoncelo. Os músicos de rua são bons pra caramba e não é difícil ver um violinista virtuose vestido a carater tocando na estação de metrô da Ferenc Körut.
Já falei que a diversidade é muito grande, mas tenho que falar novamente pra enfatizar: tem de tudo, tudo. E o melhor: é barato!! Por exemplo, hoje estávamos sem muito o que fazer, aí numa rápida pesquisa no Google descobri que ia rolar um concerto de música cigana no Gödör. "De grátis"!! Ueba!!
Chove em Budapeste. Chuva que vem e vai, sempre pega de surpresa. Vento e frio que faz duvidar da primavera que aí está. Clima que seria ótimo pra ficar em casa comendo pinhão. Mas como aqui não temos tal iguaria - eu nem gosto muito, mesmo - e os fins de semana têm contagem limitada e regressiva, não basta São Pedro estar de cara feia pra ficar longe da rua.
A convite da Bárbara, fui até a Fisherman's Bastion pra apreciar a vista, tomar chimarrão e fazer experimentos fotográficos com a função "panorama" da câmera dela.
Vista da cidade com a Ilha Margarida, Parlamento e Basílica de Santo Estevão.
Ah, três é demais!
No fim da tarde as nuvens deram trégua e o sol nos trouxe um convincente arco-íris pra confirmar que...
Aconteceu na mesma semana em que decidi vir pra Budapest. Estava numa livraria procurando um presente para uma amiga e passava a mão pela lombada de vários volumes, lendo de relance autor e título. Eis então que as letras escuras sobre a tarja mostarda surgiram como que por encanto entre meus dedos, por debaixo da mão. Sabendo do meu vindouro destino, instintivamente puxei-o e segurei pela contra-capa num só movimento e, olhando o livro de frente, não resisti a ler os primeiros parágrafos que estavam na própria capa. Quando cheguei na linha que dizia ser o húngaro "a única língua que o diabo respeita", parei de súbito. Não queria opiniões de terceiros sobre Budapest, nem boas, nem ruins; nem que fossem do Chico Buarque. Queria as minhas próprias, livres de qualquer tendência.
Devolvendo-o ao lugar onde encontrei, segui na minha busca que logo obteve êxito. Embora prefira os meios eletrônicos, paguei em dinheiro pra sair logo dali. Andava rápido, quase corria. Já havia sido copiosoamente difícil decidir aceitar o desafio de vir pra cá, então sofrer na véspera sabendo de algo que porventura eu pudesse não gostar era um conhecimento do qual eu fazia questão de abrir mão. Porém mais tarde me arrependi. Fiquei sabendo que, embora se passasse na cidade, o romance falava muito pouco sobre as impressões que ela gerava, focando mais na língua em si. Voltei a considerar lê-lo e pensei que algum amigo fosse me dar o livro como presente de formatura por achá-lo adequado, o que acabou não acontecendo. Ainda arrisquei uma última tentativa no aeroporto de São Paulo já no caminho da vinda, mas não tive sorte. Acabei vindo sem conhecer a história.
Aqui, o assunto é recorrente em conversas informais, especialmente agora que o livro virou filme e boa parte foi rodada em Budapest. Ontem à noite, por acidente, achei o trailer quando procurava outra coisa no youtube e ver nele as cenas da cidade, dos lugares onde passo, me tomou de assalto: eu precisava ler o livro.
Com um pouco de empenho, achei o e-book na internet, baixei e comecei a leitura. As palavras fluiam como barco de vento em popa e devorei o texto como uma criança sedenta que se lambuza comendo melancia no verão. Às vezes precisava voltar um parágrafo pois engolia algumas palavras na ânsia de saber o próximo desfecho. Li tudo numa sentada, um deleite.
Acordei esta manhã e não estava satisfeito. Pensei em ler tudo novamente ou sair à cata de um original na casa de amigos. Aí lembrei do endereço que Buarque cita no livro. Será que existe? O que será que tem lá? Joguei no Google Maps e encontrei! Bom, não exatamente. Tóth é um sobrenome e tinha vários nomes de ruas que o continham. Porém a "Tóth István" era a única que ia até o número 84, ficava no lado Pest e a estação de metrô mais próxima era a Újpest-Központ que, deduzi, deve ficar no distrito de Újpest; achei coincidência demais. Era relativamente perto da minha casa e, pelo site da BKV, descobri que bastava pegar um tram e um trolei que chegaria fácil. Na verdade, não foi tão fácil assim: passei da parada, caminhei pra caramba, não achei quem falasse inglês, mas enfim achei o caminho.
Dobrei certa esquina e vi que já estava na rua certa, alguns números antes do meu destino. Em contraponto à calma do subúrbio, andava agitado por aquela alameda cheia de árvores e a cada passo sentia o pulso mais forte na garganta. Passei por uma placa que indicava aquela quadra conter os prédios até o 83. Atravessei a rua sem olhar para os lados e me deparei com a única coisa que não esperava: uma lacuna. Um vazio, um nada, uma pausa, um oco, um vácuo. A quadra seguinte começava no 85.
Incrédulo, olhei ao redor procurando também do outro lado da rua. Mas não tinha jeito: o 84 da Tóth István era apenas a esquina com a Csajág. Larguei o tronco sobre as pernas como faz um atleta derrotado ao fim da corrida, suspirei e ao me colocar outra vez de pé percebi o olhar de incompreensão do senhor da casa vizinha. Me restava apenas tirar uma foto para lembrar da expedição malograda.
Mas afinal, o que eu esperava encontrar? Um museu como o 221b da Baker Street de Londres? A tal casa citada no livro, ou ainda a própria Kriska esperando na soleira?? Percebi como fui tolo indo atrás de algo que sequer eu tinha certeza que existia. As coisas quase nunca estão onde deveriam estar, especialmente se você não sabe o que está procurando.
E será que um dia eu vou saber? Será que eu vou encontrar? Enquanto isso me consolo com as palavras de Galeano que diz que é pra isso mesmo que serve a utopia: pra fazer caminhar.
Esse post podia ter o título de "chegadas e partidas (III)", mas se eu começar a numerar todas as vezes que tem alguém indo embora, vou perder as contas.
Dessa vez é o Juanca que está de partida e, pra encerrar sua estada em Budapest em grande estilo, ofereceu um jantar legitimamente colombiano:
Por coincidência, assim como na minha cidade natal, aqui também é feriado. Mas claro que a comemoração não é a mesma; afinal ia ser muito estranho a Hungria fazer um feriado nacional por causa da emancipação política de Igrejinha... Fui olhar no calendário oficial, dizia "whit monday". Pesquisando descobri que era "Pentecostes". Alguém aí sabe o que é Pentecostes??
Este não é um blog criativo, nem engraçado, nem tem a pretensão de ser leitura interessante a quem procura um passa(perde)-tempo. É apenas um diário público que tem três intenções claras: manter amigos e parentes do autor a par do que anda lhe acontecendo do outro lado do atlântico, compartilhar o conhecimento ajudando aqueles que tem interesse nas coisas com as quais ele está tendo contato e, principalmente, servir de repositório para que o próprio possa lembrar mais tarde das experiências deste período de sua vida (afinal, lembrar é viver em dobro).